18/04/2009

Crónicas de Maconde VIII: Epílogo

- Então o que é que acharam daquilo?
- Olhem eu estava aqui a pensar... lembram-se dos quatro cromos que depois se meteram a jogar à sueca?
- Sim.
- Sim.
- Sim.
- É que é assim: nós também somos quatro... Acham que daqui a uns anos vamos ser como eles?
- Epá se formos eu quero ser o gajo do swing!

Crónicas de Maconde VII

- São quatro minis se faz favor.
- Ora aí estão.
- Obrigado.
- Epá, eu acho que entretanto se calhar bebo outra coisa qualquer, um cocktail ou assim.
- Ai que pena, hoje não está cá o doutor, ele é que faz uns cocktails maravilhosos, daqueles finos, no shaker.
- Qual doutor? O ginecologista?
- Sim, o Dr. Rudolfo Dias, aquele do nome muito batido.
- Epá por acaso... ao menos que ele fosse brasileiro e se chamasse Romeu Cloé Tóris, ficava melhor.
- Curioso, no outro dia esteve cá um sujeito que não se calava com isso do clítoris... foi um caso insólito.
- Sr. Martins, há por cá muitos casos insólitos, não há?
- Não, nem por isso, por que é que pergunta?
- Nada, nada.
- Então e os senhores estão a gostar de cá estar? Chegaram a ver o castelo?
- Qual castelo? Aquele monte arraçado de estufa fria? Aquela cárie na morfologia de Maconde?
- Bem sei, bem sei.... mas ainda assim é o nosso castelo, e temos orgulho e paixão por ele. Sabe, Maconde é uma terra de muita paixão. Tanto que algumas pessoas, por brincadeira, até costumam dizer "à falta de soluções, paixões." É a tal coisa, quando só há paixão, vai à mão. Bem, ao menos gostam do meu estabelecimento?
- Ah, o espaço é muito agradável!
- O Favaios é só um euro!
- É botassar!
- Não dá para passar só um bocadinho de rock?
- Hmmmm.... com esse cabelo e a pedir rock... estou a ver, você é daqueles malucos que andam por lá aos saltos nos concertos da pesada, não é?
- Só sempre que posso, de resto nem por isso.

Tinha chegado a hora de irmos embora. Fizemos contas, bebemos um Favaios oferecido pelo Sr. Martins, e estávamos quase a sair quando subitamente, no velho televisor a um canto da taberna, vimos o seguinte:

NOTÍCIAS DE ÚLTIMA HORA: ESCÂNDALO EM MACONDE

Boa noite senhores telespectadores, estamos em directo a partir de Maconde, onde um homem se barricou no confessionário da igreja local, na sequência de buscas efectuadas em sua casa pela Polícia Judiciária.
Conseguimos apurar que foi feita uma denúncia anónima, sugerindo que a sua filha mai nova estaria a sofrer abusos sexuais por parte do padre local, entretanto detido pela Polícia Judiciária e retido nos seus calabouços. Ou mais correctamente, numa cela vulgar, dado que apenas a um VIP nos dignamos associar a palavra calabouço.
Pelo que pudemos apurar, o indivíduo está na posse de uma arma não identificada com, e cito, "mira laser". Sabemos ainda que a sua filha mai velha foi detida por prostituição, e que o seu do mei está neste preciso momento a ser interrogado, por suspeita de tráfico de droga.
A população local está em choque, principalmente devido às acusações de abuso sexual

- Pinto da Costa é o meu pai! Pinto da Costa é o meu pai!

cometidas pelo padre local, sendo que é visível um sentimento de incredulidade e consternação geral. Seguimos de imediato para o interior da igreja, onde tentaremos obter um depoimento do homem, Aureliano de seu nome, visivelmente perturbado com o desenrolar dos acontecimentos.

Senhor Aureliano, estamos em directo para o canal televisivo LOL. O que nos pode dizer nesta altura?

-Ai mãe! Ai mãe! Ai a minha vida! Aaaaaaaai a minha vida! A vida vai torta, jamais se endireita! Desarredem! Desarredem, senão eu clico-vos a todos! A todos, ouviram?

Senhores telespectadores, foi o testemunho possível neste momento. Aguardamos ainda uma declaração do presidente da Câmara local, dado que apesar dos nossos melhores esforços não conseguimos até ao presente obter uma declaração, devido ao adiantado da hora. São neste momento precisamente

17/04/2009

Crónicas de Maconde VI

- São quatro minis se faz favor.
- Sim senhor. Ouçam lá, por acaso não fazem ideia de quantas é que já pediram?
- Hmmm.... Assim de repente... não sei, talvez o gajo dos déjà vus tenha visto... senão pergunte ao gago, que ele lembra-se de certeza. Epá espere lá, ao gajo dos déjà vus não, senão pagamos aí o triplo! Pergunte ao gago!
- Ouça lá, você está a gozar comigo?
- Não, não, estava só a brincar, não leve a mal.
- Tudo bem....

Já só estávamos nós ao balcão. Um a um, os quatro homens tinham ido para perto do velho televisor a um canto da taberna, sentando-se na mesa mais próxima. Subitamente, um deles voltou-se para trás e gritou:
- Ó Martins! Traz aí quatro tintos e um baralho de cartas, vamos jogar uma suecada!
- Olhó-lhó-lhó-lhó-lhó... vamos ter festa outra vez...
- Então, aqui não se pode jogar?
- Não é isso; aqueles quatro andam sempre a inventar, é um caso insólito. Há uns tempos foi o chinquilho. O Quim ainda anda a pagar ao Branco dois painéis laterais do carro dele.
- Eia! Então mas ele conseguiu abrasar dois painéis de um carro com a malha?
- Não, só um. Ele é que lá achou que já tinha feito aquilo antes, e jurou a pé juntos que se lembrava perfeitamente de que não tinha pago... e meter-lhe na cabeça o contrário?

Enquanto o Sr. Martins levava as cartas e os copos para a mesa, decidimos ir ver e meter conversa.

- Então os senhores vão jogar uma suecada? Muito bem! Então e quais são as equipas?
- Quim Tonico, Martinho Branco.
- O quê? Lindo! OK, então nós jogamos a seguir. A nossas equipas são Bacardi Lemon, Moscatel Favaios!
- Está bem, está bem, jogam a seguir. Então quem é que baralha?
- Epá baralha o Branco, que ele é que é o perito em trocar as biscas de um lado para o outro!
- Ai tanta piada que tu tens, vês? Ao menos quando é para fazeres gracinhas nunca te dá um déjà vu, não é meu ranhoso?
- Então em inglês é o mesmo, toda a gente sabe isso.
- Olha lá ó palhaço, não estarás a confundir swing e shuffle?
- Sh-sh-sh-sh-shhhhhhhh-shhhhhh-shhhhhhhhhhuffff-f-f-f-f-f-f-le???? O-o-o-o-o-o-o-o vaivem vaivem vaivem vaivem vaivem vaivem vaivem vaivem vaivem espe-pe-pe-pe-pe-pe-pe-pe-cial?
- Outro! Ouve lá ó cromo, isso é shuttle e não shuffle, e é espacial, e não especial. Vai-vem especial faziam todos os gajos cá da terra em casa da tua mãe, ouviste?
- Epá pronto, não se peguem, julgo que isso não é bom... calhando também não é mau, mas pronto, antes assim que pior, julgo eu.
- O que é que é trunfo?
- É-é-é-é-é-é-é-é-é-é-é-é-é-é-é-é-é-é..... éééééééé..... hmmmmmm........ c-c-c-c-c-c-c-c-c-c-c ...alho!
- Hã? Ah, estou a ver, é paus. OK, quem é que joga primeiro?
- Julgo que sou eu. Pelo menos acho que sim, parece-me. Têm a certeza que sou eu?
- Opá és, joga.
- Sim, só um segundo, estou a escolher a melhor maneira de arrumar as cartas, julgo que já estou a ver mais ou menos a melhor maneira de o fazer, ou por outra, não há de ser a pior, julgo.
- Vá então arruma isso. Epá querem ver uma boa? Ó Tonico, ainda te lembras das regras?
- S-s-s-s-s-s-s-s-s-sssssssssssssssss-sim. Só n-n-n-n-n-n-n-não-não-não-não-não-não-não-não-não me lembro-bro-bro-bro-bro-bro-bro-bro é do-do-do-do-do-do-do do t-t-t-t-t-t-t-ttttttttttttt...
- Do trunfo? Ó Quim, mas tu estás a ver este gajo?
- Oh, ainda à bocadinho isto aconteceu, acabei de me lembrar disso... já não estou a ver isto com bons olhos, essa é que é essa.
- Tonico, o trunfo é paus, percebeste? Paus. Paus. PAUS!!!!!
- N-n-n-n-n-ão, não não não não não me lembbbbbb-bbbbb-bbbbb-bbbbb-bbbbbro é do-do-do-do-do-do-do-do-do tip-p-p-p-p-p-p-p-o de jogo-go-go-go-go-go-go-go-go-go-go-go.
- Opá porra! É sueca! SUECA!
- Então mas jogamos ou não?
- Sim vai. Martinho, joga. Já viste que horas é que são?
- Boa! Que horas são? - Perguntei eu imediatamente.
- São agora exactamente horas deste animal jogar.
- Só um momento, julgo que já estou pronto, acho que só me falta decidir a carta.
- Vai, joga mas é.
...
...
...
- Martinho, joga.
- Calma.
- Martinho..... joga.....
...
- Martinho?
...
- Martinho?
...
- Martinho, olha...
- O quê?
- JOGA MERDA!
- Epá calma, não me quero precipitar.
- Epá isto assim não dá, eu quero trocar de parceiro!
- Olha porra para ti mais as trocas de parceiros! É que não dás descanso!

Ai, estes quatro, estes quatro..... mas vocês acham que eles vão conseguir jogar alguma coisa?
- OK.... olhe, são quatro minis se faz favor.

05/04/2009

Crónicas de Maconde V

- São quatro minis se faz favor.
- Aí estão, façam favor.
- Obrigado. Sr. Martins, então e Maconde é uma terra que tem crescido?
- Pouco. Às vezes ouve-se falar numa coisa ou outra, mas é raro depois algo ir para a frente. Agora é o TGV. Parece que vai passar cá perto.
- Boa! Então mas isso é positivo, não?
- Talvez, depende do projecto. Umas das hipóteses é o traçado Lisboa - Maconde - Madrid. Outra hipótese implica pelo menos quatro estações nos primeiros cento e pouco quilómetros, Maconde incluída. Essa é aquela que eu gosto mais.
- Ah sim? Então e porquê?
- Então, porque era bom para o país, ficávamos com um aeroporto internacional e com um TGV regional, toda a gente ficava servida. E eu até já dei a ideia de se fazer um novo hino cá para a terra; ora ouça lá esta entrada:

"Quem passa
pelo apeadeiro de Maconde,
não passa
sem perguntar: -Adonde?!?"

Mas não acredito que vá para a frente. E toda a gente anda com medo.
- Medo de quê?
- Sabe, há pouco tempo tivemos cá uma Feira da Ciência e da Tecnologia. Resultado: no dia da abertura, a nossa subestação eléctrica ardeu. Agora imagine um TGV sempre para trás e para a frente. Era bonito! Tanto que algumas pessoas, por brincadeira, agora até costumam dizer "Antes uma subestação eléctrica que uma superstição eléctrica".

Entretanto, continuava sem saber as horas. Resolvi tentar outra vez, e virei-me para o homem ao meu lado:
- Desculpe, o senhor pode dizer-me que horas são?
- Não, não posso. Não tenho relógio, quero que se lixem os relógios, tenho ódio a relógios, quero mais é que os relógios vão todos para o inferno.
Tendo dito isto, o homem afastou-se de nós para perto do velho televisor a um canto da taberna. Virei-me de novo para o balcão e para o Sr. Martins.
- OK... o que é que foi agora?
- Ah, o Branco... pobre coitado. É um caso insólito.
- Sim........?
- Ele era casado. Ele e a mulher eram o par perfeito, amavam-se infinitamente, eram apontados por toda a gente como um exemplo. Mas sabe, eles faziam swing, e eram felizes assim.
Uma vez, durante uma sessão de swing, no fim, o relógio dele adiantou-se e então ele foi ter com a mulher antes da hora marcada. Apanhou-a no quarto, sozinha e toda vestida... Não suportou. Passado pouco tempo, divorciaram-se. Mas ele é bom rapaz, tem é a vida feita num tormento... acho que agora a maioria das pessoas não aguentava trocar com ele.
- OK.... olhe, são quatro minis se faz favor.

01/04/2009

Crónicas de Maconde IV

- São quatro minis se faz favor.
- ... Fresquinhas!
- Obrigado. Sr. Martins, então e a juventude? Maconde é uma terra com muitos jovens?
- Há alguns, há alguns. Sabe que isto é uma terra de artistas! Principalmente músicos. Bem, principalmente artistas, mas alguns são músicos. Alguns até já foram tocar a festivais e tudo.
- Epá mas isso é excelente; por acaso nós quatro somos todos profundos apreciadores de música, cada um à sua maneira. Então mas existem cá muitas bandas?
- Umas quantas. Faz-se cá qualquer coisa, tanto que algumas pessoas, por brincadeira, até chamam a isto Madconde.
- Madconde? Como em "Madchester"? Epá mas então isso é formidável! Quer dizer que vocês têm cá uma cena musical fervilhante, com bandas capazes de influenciar toda uma geração, e criar uma sonoridade inovadora com um impacto internacional duradouro, dando centenas de concertos e vendendo milhões de álbuns em todo o mundo?
- Ouça lá, você já bebeu de mais não já?
- Não, não, esqueça, estava a sonhar.

Entretanto, continuava sem saber as horas. Resolvi tentar outra vez, e virei-me para o homem ao meu lado:
- Desculpe, o senhor pode dizer-me que horas são?
- Julgo que sim, deixe-me verificar... olhe, julgo que não tenho o relógio comigo. Eventualmente deixei-o em casa, ou então no carro. Em casa ou no carro. Mas deixe-me confirmar, talvez esteja num dos bolsos do casaco.

Bem, talvez fosse agora que ia conseguir saber as horas. Resolvi meter conversa com ele.

- Obrigado, agradeço. Já agora, o senhor chama-se...?
- Pedro Manuel Martinho, prazer em conhecê-lo. Pedro Manuel. Pedro. Manuel. Pedro ou Manuel.
- Então como é que prefere, Pedro ou Manuel?
- Pode ser.
- Hmmmm ok. Então e o senhor é de cá de Maconde?
- Julgo poder dizer que sou.
- Nós estamos só de visita. O que é que o senhor acha de Maconde? Gosta de viver cá?
- Jugo que é relativo. Nem sim nem não, antes pelo contrário. E vice-versa. Lastimo, mas tenho mesmo a suspeita que perdi o relógio. Julgo que não o deixei em casa mas duvido que o tenha deixado no carro.
- Então mas tem mesmo a certeza que o perdeu? Já viu os bolsos todos?
- Julgo que sim. Em princípio talvez. Tudo depende. Julgo eu.

Tendo dito isto, o homem afastou-se de nós para perto do velho televisor a um canto da taberna. Virei-me de novo para o balcão e para o Sr. Martins.
- Isto definitivamente não está a correr bem... Sr. Martins, aquele homem é assim um bocadinho a dar para o indeciso, não é?
- Quem, o Sr. Dr. Juiz Martinho?
- O QUEM?!?
- Martinho. Então mas ele disse-lhe o nome, certo?
- Juiz... ele é juiz...
- Oh, isto não foi nada. Havia de o ter visto no dia em que se casou, quando o padre lhe perguntou se aceitava... É um caso insólito. Mas ele é bom rapaz, nunca faz juízos de valor a ninguém.
- OK.... olhe, são quatro minis se faz favor.

28/03/2009

Crónicas de Maconde III

- São quatro minis se faz favor.
- Estão a sair.
- Obrigado.
- Então mas e os senhores ainda não viram nada em Maconde?
- Para ser sincero, não. Assim que chegámos dirigimo-nos ao seu estabelecimento, e aqui estamos.
- Estou a ver. Então mas pelo menos deviam ir conhecer o Mosteiro.
- Vocês têm um Mosteiro?
- Sim, sim, um dos Mosteiros mais importantes de Portugal. Até teve direito a uma Requalificação há pouco tempo. Uma obra grande.
- Mas isso é muito bom. Então e gostaram da Requalificação do Mosteiro?
- Bem... a Requalificação do Mosteiro... enfim, teve coisas boas... agora as lojas Vazias estão numa área muito mais bonita. Nunca o comércio em Maconde foi tão Pouco comércio e tão tradicional.
- Então mas... as pessoas Competentes Não modernizaram o comércio?
- O que é que quer dizer com modernizar o comércio?
- Nada, Nada, esqueça, estava a Sonhar.

Entretanto, continuava sem saber as horas. Resolvi tentar outra vez, e virei-me para o homem ao meu lado:
- Desculpe, o senhor pode dizer-me que horas são?
- Está a falar comigo outra vez?
- Sim, estou a falar consigo.
- Pois olhe, por muito que gostasse, não posso. E além disso já me perguntou as horas há bocado.
- Há bocado? Não, só agora.
- A sério? Estranho, era capaz de jurar que já me tinha perguntado.
- Não, de facto não... então mas podia dizer-me as horas?
- Dizer-lhe as horas... que estranho... curioso, acabei de ter a sensação de já ter não visto isto antes.
Tendo dito isto, o homem afastou-se de nós para perto do velho televisor a um canto da taberna, em passos muito curtos, com os braços levantados à altura da cintura. Virei-me de novo para o balcão e para o Sr. Martins.
- Bem, se calhar também o incomodei, mas eu sinceramente só lhe perguntei as horas.
- Ah o Quim? Não se preocupe, você não fez nada de mal. O Quim é mesmo assim.
- Mesmo assim como?
- É um caso insólito. O Quim é cego.
- Ah, ele é invisual.
- Não, ele não tem dinheiro para ser invisual, é só cego. Cegou há uns anos atrás, num acidente de mota.
- Epá, não me apercebi que ele era cego.
- Tudo bem. O problema é que ele também é terrivelmente dado a déjà vus; está sempre a confundir-se, e a confundir os outros. Só de me lembrar que ele era da brigada de trânsito... chegava a multar as pessoas três e quatro vezes pelo mesmo.... tanto que algumas pessoas, por brincadeira, quando eram mandadas parar por ele, diziam: "Pronto, já estou Quimlhado". Mas ele é bom rapaz, nunca vê mal em nada.
- OK.... olhe, são quatro minis se faz favor.