06/05/2009

Quando o telefone toca

Olá a todos. Hoje venho falar-vos de telemóveis. Mais exactamente, do culto "Não atendo chamadas não identificadas”. De vez em quando lá apanho um dessa seita. Despertam-me sempre a curiosidade, tento em vão compreender, e acabo por me solidarizar com eles, pois é uma vida de tormentos.

Onde terão exactamente ido desencantar semelhante teoria? E porque ficam tão sérios e inflexíveis quando divulgam a sua fé? As minhas fontes sugerem-me que foi um conceito criado pela mesma ave rara que num dia fatídico arrotou a ideia peregrina de que o correcto é dizer-se “desfazer a barba”, e não "fazê-la", pois um homem de facto remove os pelos da face, não os coloca lá.

Certo. Até aí de acordo, tudo bem; reconheço que eu próprio, quando chego adiantado a um compromisso ou estou à espera de alguém, aproveito para ir ver montras, para desfazer tempo. E que uma vez, quando fiz campismo selvagem, tive ocasião de desfazer uma real à campo. Maravilha.

Quanto ao culto dos “Não atendo…”, angustiam-me. Como é que eles faziam há uns anos, quando ainda não haviam telemóveis, ou pelo menos telefones fixos com mostrador digital? Como? Percebem agora a dor deles? Imaginem o que era ter o telefone a tocar sem saberem quem era. Indefesos, sozinhos, vulneráveis. Todo o medo, a incerteza, a dúvida (googlem FUD). Vamos observar de perto:

Trimmmm.
- Ai!
Trimmmm.
- Ai Jesus!
Trimmmm.
- Ai meu Deus agora o que é que eu faço? Será que é para atender?
Trimmmm PORRA!
- Epá vou arriscar, talvez conheça. [Pega no telefone] Estou sim?
- Estou sim boa noite. Eu queria falar com…
- Ná ná ná ná aí pára o baile. Identifique-se!
- É o Margarido. Eu queria falar com…
- Não conheço. E desculpe mas não atendo chamadas não identificadas.
- Então mas eu disse-lhe o meu nome!
- Não interessa, eu queria antes. O senhor vai desligar, voltar a ligar, e dar-me tempo para não o atender.
- Como?
- Já disse tudo que tinha a dizer.
- Então você quer que eu desligue, volte a ligar e deixe tocar, é isso?
- Sim é isso, não se desfaça de entendido. E quanto mais tempo melhor.
- Pronto está bem, com licença. Ligo e deixo tocar enquanto vou desbarbear-me. Com licença.
- Ora essa amigo, faça favor!

Trimmmm, trimmmm, trimmmm…………

[silêncio]

- Pronto, toma lá que já aprendeste. Olha este, deve pensar que é importante.


Ora por aqui se vê que o quotidiano dos membros da seita tem um histórico de grandes dificuldades e perigos. Também me atormenta a ideia de os seus membros manterem a sua postura em contextos diferentes. Será que quando vão a conduzir e levam com sinais de luzes de um condutor não identificado, aceleram e tiram o cinto para deixar bem claro que não aceitam uma dica anónima sobre uma operação stop lá mais á frente? Ao fim e ao cabo, se atender uma chamada não identificada significa um perigo mortal na grande maioria dos casos, o que dizer de sinais de luzes?

Mas amigos, em verdade vos digo que aquilo que mais apoquenta o âmago do meu ser é pensar na vida sexual deles. Simplesmente não tenho palavras para descrever tal tormenta em vida. O horror, o horror… a lenta demência desses corações nas trevas…

Imaginem: está um deles muito bem a guardar um dos pilares da discoteca de copo na mão, quando subitamente é abordado por uma gaja perdida de boa. E eu refiro-me a uma gaja muito, mas mesmo muito perdida de boa. Uma gaja tão boa, tão boa, que um gajo nem sabe o que é que lhe desfazia. Uma gaja que se fosse Maria, Deus não tinha ido na cantiga de fazer com que Jesus fosse filho de mãe virgem.
Então a moça chega e diz:
- Olá tudo bem? Olha, estou farta de aqui estar e preciso de uma boleia para casa. Será que podias ir comigo? Bebíamos um copo, relaxávamos, conhecíamo-nos melhor… quem sabe o que noite nos trará? [sorriso matador, lindo de morrer].
- NÃO.
- Ah desculpa, já percebi. Tenho imensos amigos gays, tudo bem.
- Não é nada disso!
- Então?
- Não me deixo engatar por mulheres que não se identificam.

[olhar esgazeado, vira costas, afasta-se. Ele vira-se para os amigos]

- Eishhh! Mas vocês viram esta gaja? É que era a noite inteira! Aí é que iam ver em quanto tempo é que se faz o túnel do Marquês! Só eu é que não conheço gajas assim! ‘dasse!

[os amigos olham para o chão, soluçam, choram e maldizem a sua vida]

Portanto meus amigos, não gozem com quem sofre, ofereçam um ombro amigo aos membros desta seita, a estas alminhas penadas que tantas vezes ficam a desfazer serão a tentar descobrir quem é que lhes poderia ter ligado. Acima de tudo, enviem-nos um mail para mundonuecru@gmail.com caso saibam a origem desta teoria.

Pela minha parte, há muito que desisti de compreender. Conheci uma única pessoa que talvez me pudesse elucidar, mas desgraçadamente ela não se identificou. Falo de um homem que há muitos anos atrás telefonou para minha casa, naquele tempo em que tínhamos um telefone fixo sem LCD. Foi a minha mãe que o atendeu, sendo que vos deixo aqui a transcrição fiel do diálogo mantido:

Trimmmm.
- Estou sim?
- Está? Fala da casa do não-sei-quem?
- Não, olhe que o senhor enganou-se no número.
- Ah está bem, desculpe, com licença.
[desligou]

Trimmmm.
- Estou sim?
- Está? Não-sei-quem, és tu?
- Não, olhe que o senhor voltou a enganar-se no número.
- Está bem…

[desligou]

Trimmmm.
- Estou sim? É o mesmo senhor outra vez não é?
- Então mas não fala do não-sei-quem?
- Não, olhe que o senhor deve ter mesmo o número errado.
- EPÁ MERDA! MAS SE NÃO É PARA VOCÊS PORQUE É QUE ATENDEM?!?!?

1 comentário:

marluzluanda disse...

Lindo, lindo, lindo (estou sem palavras)...
Sem dúvida o teu mais inspirado tema.

Acreditas que estive o tempo todo a chorar de tanto me rir?

Não é que não aconteça com os outros posts, mas este é como aquela gaja mesmo tão perdida de boa, que nem Deus a poupava ;)

Bom, vou desfazer o almoço, porta-te mal :D